Obrigado por fumar

Tabaco, bebidas alcoólicas e refrigerantes, jogos de azar e cassinos, armas e equipamentos militares. As indústrias desses produtos são o nicho de atuação de uma categoria bem específica de fundos de investimento, os fundos de vícios. Questões morais à parte, existe uma lógica financeira consistente na estratégia destes "fundos do mal".


Enquanto os fundos éticos e de responsabilidade social vêm ganhando destaque cada vez maior, os fundos de vícios continuam atuando na direção oposta. Conhecidos no exterior como vice funds, ele concentram seus investimentos em papéis de empresas que exploram mercados considerados imorais.

Recentemente, os gestores desses fundos têm aumentado a diversificação dos investimentos, acrescentando ao rol das empresas de vícios novas categorias, como por exemplo empresas de mídias sociais, fabricantes de jogos para smartphones e empresas de junk food. Segundo os gestores, esses produtos e serviços também causam dependência e, de certo modo, algum dano para o consumidor.

Na Austrália, onde a prostituição é legalizada, existe até um bordel listado na bolsa de valores, que poderia compor a carteira de alguns fundos de vícios. Com a eventual legalização das drogas, podemos imaginar que no futuro veremos também a possibilidade de se investir em empresas que exploram comercialmente esses produtos.

Vantagens econômicas

Os gestores do fundos de vício possuem sólidos argumentos financeiros para investir nessas empresas. Dentre eles, destacamos os principais:

  • Demanda inelástica. As empresas que exploram produtos ligados aos vícios estão menos sujeitas a períodos de crise. O raciocínio é o de que as pessoas não vão deixar de beber, fumar ou apostar quando estão com problemas financeiros. Pelo contrário. Em momentos de tensão e dificuldades, os consumidores tendem a beber, fumar e apostar ainda mais. E o desempenho dessas empresas se mantém ou melhora, enquanto o resto do mercado afunda.

  • Pouca concorrência. Devido à questão moral, existem menos pessoas dispostas a atuar nesses mercados. Assim, há uma barreira que reduz o número de concorrentes, ajudando a manter as margens de lucro elevadas.

  • Ações baratas. Diversos investidores institucionais possuem uma política de responsabilidade social que proíbe a aplicação em empresas de vício. O fundo de pensão da Noruega, o investidor com a maior posição do mundo em ações, já excluiu de seu portfolio dezenas de companhias ligadas a setores de vício ou pecado. Em 2009, excluiu uma série de empresas ligadas ao tabaco, inclusive a brasileira Souza Cruz.
    Esses investidores instituicionais são os maiores investidores do mundo e seu comportamento tem grande impacto sobre o preço das ações. Ao evitar esses papéis, eles fazem com que as ações dessas companhias fiquem baratas. O preço baixo, por sua vez, torna os dividendos muito mais atraentes, pois o lucro distribuído é significativo em relação a cotação.

  • Mercado global. Por oferecerem produtos extremamente acessíveis, seu mercado consumidor é imenso. Seus produtos são comercializados em larga escala e em todo mundo, não se limitando a nichos ou regiões específicas.

As características acima, sozinhas, seriam suficientes para justificar a compra de qualquer papel por um gestor que não levasse em consideração as questões morais. É isso que acontece em fundos de vício: os fundamentos falam mais alto e a prioridade é o ganho.

Não sabemos da existência de nenhum fundo desse tipo aqui no Brasil, mas imaginamos que seria possível uma carteira de vícios com empresas como Souza Cruz (tabaco), Ambev (bebidas), Forjas Taurus (armamento) e Embraer (aeronaves militares), por exemplo.

É difícil dizer se haveria público para esses investimentos: investidores interessados em aplicar seu dinheiro com essa diretriz expressamente pecaminosa. Por outro lado, atuar em quaisquer outros mercados não faz com que as outras empresas possam ser consideradas “do bem”. Inúmeros são os casos de empresas cujas atividades são poluidoras, exploram mão-de-obra infantil ou em condições análogas à escravidão, oferecem produtos de má qualidade e até nocivos ao consumidor. Às vezes nos surpreendemos ao ver essas empresas no portfolio de fundos ditos socialmente responsáveis.

Fundos socialmente responsáveis

Do outro lado de toda essa discussão, temos os fundos cujo principal nicho são as empresas com preocupações de responsabilidade ambiental, social e de governança (ASG). Esse também é um mercado bastante desenvolvido em outros países, mas que ainda engatinha aqui no Brasil.

A classificação utilizada pelos fundos éticos brasileiros é fraca, e não envolve uma real análise das atividades econômicas das empresas ou do impacto que causam sobre questões ASG. Muitos fundos resumem-se a verificar se as companhias investem em programas sociais ou de redução de danos ambientais.

Por esse critério, uma empresa poluente que tenta diminuir seu impacto ambiental já é considerada socialmente responsável.

Mesmo quando avaliamos os fundos ou índices de responsabilidade social que apresentam uma metodologia consistente (veja, por exemplo, a metodologia do Índice de Responsabilidade Empresarial calculado pela BM&F-Bovespa em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, Instituto Ethos e outras), notamos que essas metodologias apresentam dificuldades de ordem operacional.

Medir o impacto ambiental e social das empresas é extremamente trabalhoso e caro. Seriam necessárias grandes equipes de especialistas, o que inviabiliza economicamente a avaliação dessas métricas em escala. O índice da BM&F-Bovespa é um passo no sentido certo, mas tem como principal instrumento de análise um formulário preenchido pela própria empresa.

Fundos de Fé

Por fim, há mais um grupo de fundos de investimento direcionado por questões ligadas à moral. Eles foram apelidados de "fundos de fé", pois seus investimentos são balizados por diretrizes que vão além das questões terrenas.

Normalmente ligados a uma comunidade religiosa específica, os fundos religiosos evitam o investimento nas empresas de vício e também dão preferência a empresas que tenham alguma ligação com sua fé ou que respeitem determinados preceitos religiosos.

Os fundos católicos, por exemplo, evitam investir em empresas farmacêuticas que fazem pesquisas com células tronco ou produzem produtos ligados aos métodos contraceptivos ou ao aborto.

Novamente, não temos notícia de fundos brasileiros que sigam os preceitos religiosos específicos, apesar de sabermos da existência de fundos fortemente difundidos em comunidades religiosas.

O Valor publicou um excelente artigo sobre os fundos de fé, vale a pena ler.

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